sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

E você achando que ele era "só" um macaco....

Você sabe quais são os grandes primatas? O homem, os chimpanzés, os gorilas, os orangotangos e os bonobos (antes chamados de chimpanzés pigmeus). Bem, talvez essa lhe pareça apenas uma lista de grandes macacos, como os chamamos normalmente, tirando o homem... 


Aliás, talvez até lhe pareça um absurdo que o homem seja colocado no mesmo grupo desses animais, somos tão mais bem preparados, não é? Somos filhos de Deus, alguns dirão, temos alma, outros complementarão e de "ão"em "ão" vamos encontrando mil e uma formas de negar nosso parentesco, nossa ligação com o resto da natureza.... 


Fotos de Steve Bloom. 

Prepare-se, caro amigo ou amiga, você vai ter que mudar seus conceitos logo, logo.... 

Não somente os estudos científicos, mas a própria convivência das pessoas com esses animais vem demonstrando que eles são mais do que "animais", como estamos acostumados a vê-los, encerrados em jaulas nos zoológicos ou em laboratórios... Normalmente, a convivência leva ao respeito. Ninguém, em sã consciência, pode dizer que eles não têm algum tipo de vida emocional... ou psicológica... como queiram chamar, mas não há como não enxergar. 

Se ainda esperamos deles apenas gracinhas, truques, caras e bocas, vamos nos surpreender ao saber dos seguinte: a) eles são conscientes de sua própria existência, reconhecem a si mesmos no espelho e reconhecem outros seres mesmo em fotografias; b) têm os mesmos sentimentos que nós temos, inclusive sofrem de depressão e outros problemas psiquiátricos. Podem, inclusive, enlouquecer devido ao stress... 

Isso é o que afirma a reportagem da Revista Planeta de janeiro de 2009.  São dois textos menores que se complementam: "Macacos me mordam! Chimpanzés surpreendem na interação com humanos" e "Diferença é pequena".  Juntos trazem informação suficiente para uma super aula de ciências, das boas! 

Principalmente na primeira reportagem, o que se vê são essas percepções serem elencadas. Lê-se também que chimpanzés de zoológicos podem acabar loucos como qualquer humano exposto a estranhos, sem direito à privacidade e à liberdade, e reagem até com a automutilação (morder-se e arrancar os pêlos)...

"Os chimpanzés são muito inteligentes. Colocá-los nessas condições é como prender um homem em uma jaula", afirma Pedro Ynterian, empresário e dono do Criadouro Velho Jatobá e Santuário GAP Projeto Grandes Primatas), em Sorocaba (SP). O Projeto, criado pelo filósofo Peter Singer, é internacional e Pedro é seu atual presidente, o que faz do Brasil sua sede.

De acordo com a reportagem, nosso país possui quatro santuários familiares que abrigam 74 chimpanzés, grande parte vinda de circos e de zoológicos. Nestes últimos sofrem ainda mais do que nos primeiros. A ligação humana, possível em um circo, é inexistente nos zoológicos e isso faz muita diferença. 

Não que, em circos, suas vidas sejam muito melhor.  "Eles têm seus dentes arrancados, são castrados (para que não se tornem uma ameaça) (...), Hulk, por exemplo, foi vítima dessas agressões. Quando o encontraram, ele estava cego devido a uma infecção nos olhos."Afirma Pedro Ynterian, na reportagem. Em São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro e Curitiba, os circos com animais não podem entrar na cidade. Outras cidades têm a mesma lei. Todas deveriam ter...

Com uma diferença de apenas 0,6% do DNA humano, o comportamento desses animais é muito semelhante ao nosso, só não podem falar... A presidente da GAP no Brasil, Selma Mandruca, defende os chimpanzés como "seres humanizados", justificando que, se não podem ser chamados de homens, também não são animais domesticados, "a distância genética entre homens e os chipanzés se revelou tão pequena que ambos deveriam ser classificados na mesma espécie - algo como o Homo Macacus, se o latium assim o permitisse."




Mas não são somente os chimpanzés os que possuem uma relação tão próxima ao homem, orangotangos e gorilas são capazes de transmissão cultural, por exemplo....E os bonobos têm sido estudados também. Carlos Vogt, falando sobre o livro "Eu, primata: porque somos como somos", de Franz de Waal, biólogo holandês (atualmente nos EUA) que pesquisa a inteligência social desses animais, afirma o seguinte: 

"A novidade que estudiosos da área apresentam é que o comportamento “moral” observado em animais na natureza pode ser produto da cultura e não puro instinto e herança genética como se acreditava até recentemente. Sabe-se, hoje, que animais não humanos são solidários, fazem sexo também por prazer, são capazes de raciocínio lógico e inteligência, conseguem transmitir conhecimentos – a base da cultura – e, portanto, têm uma cultura.  São fatos fascinantes, sejam as estratégias de guerra mostradas nos documentários que focam o mundo animal, sejam as ocorrências de quebra de regras em favor da empatia, mesmo que se saiba, o tempo todo, que tanto a preocupação com o sofrimento alheio quanto a união de esforços na realização de determinadas tarefas são muito importantes para a preservação do grupo.  Por outro lado, a constatação de que os pilares da moralidade humana, a solidariedade e o altruísmo, também se manifestam largamente nos animais, traz uma nova visão da construção dessa moralidade, não mais determinada pela cultura, para controlar nossos instintos animais, mas sim inerentes à nossa constituição animal. São descobertas que causarão, senão uma revolução, pelo menos muita marola nos divãs dos psicanalistas e, quiçá, de outras áreas da ciência."

Rodrigo Constantino complementa: 

"Frans de Waal não concorda com a visão pessimista de que os homens são os lobos dos homens, e que somos a única espécie na Terra que pode vencer os instintos básicos, como se estes fossem todos de natureza negativa. Para ele, assim como para Darwin, nossas características humanitárias baseiam-se em instintos sociais que temos em comum com outros animais. Existem diversos relatos de ações nobres praticadas por animais, como uma gorila que ajudou um menino que caiu no zoológico ou uma chimpanzé que tentou salvar um pássaro machucado. O que consideramos um código moral pode muito bem ter sua origem no próprio processo evolutivo. (...) O animal homem, com características similares tanto aos chimpanzés como aos bonobos, supera seus parentes próximos tanto do lado positivo da escala como do negativo. Para ser cruel, o homem é capaz de atrocidades espantosas, como os regimes nazista e comunista demonstraram. Mas para fazer o bem, o homem também demonstra uma capacidade bastante superior, pelo grau de empatia que é capaz de sentir, pois pode se imaginar no lugar do sofredor como nenhum outro animal. Temos uma natureza tanto competitiva como solidária. "Para serem bem-sucedidos, os animais sociais têm de ser falcões e pombas", afirma Waal. Quanto maior a dependência mútua, maiores as chances de harmonia no convívio. Afinal, quando o seu sucesso depende do sucesso alheio, a hostilidade perde muito de seu sentido. Por isso a globalização e a divisão de trabalho acabam funcionando como entraves para guerras, enquanto o isolamento favorece a hostilidade entre grupos."

Bom, né? 

Voltando aos não-humanos, uma frase de Pedri Ynterian pode resumir, ou ainda melhor, situacionalizar o que vem sendo dito até agora sobre meu principal interesse, o respeito aos animais: "Hoje, é o chimpanzé que é praticamente humano. Amanhã vai ser o resto dos animais. Com o tempo todos terão de ser respeitados."  

Amém, Pedro! 

Mas....sempre tem um MAS! À parte disso tenho que perguntar uma coisa que me angustia, tenho que reconhecer um fato: por que os animais devem ser respeitados apenas por serem tão próximos de nós? Então eles têm de ser quase humanos para não sofrerem crueldades? Os menos próximos não podem ou devem ser respeitados? Discutir isso nos leva a um post anterior: O que é abolicionismo? Lá você vai encontrar definições sobre especismo, bem-estarismo e abolicionismo. (Dê uma olhada também no texto "Humanidade, Animalidade, quais fronteiras?" no www.guiavegano.com.br.) 

Tenho pensado muito sobre esses assuntos, e confesso, feliz, que algumas das idéias que li combinam com as minhas. Primeiro, a bondade, um certo altruísmo, a solidariedade, a cordialidadee até a civilidade não podem ser simplesmente criação de igrejas e seres intelectualmente mais bem preparados....são por demais antigas e comuns no reino animal (novamente, quem convive com animais, sabe...).  

Segundo, creio que a violência não está na natureza humana ou animal, ela é uma resposta gerada por uma necessidade. Ela é aprendida. Você pode ensinar o contrário! Janos Biro, em outro texto sobre os bonobos e os chimpanzés, afirma: 

"Agora sabemos que isso [a violência] não é uma imposição de nossa natureza, é apenas uma escolha de modo de vida. Nossa sociedade não precisa se basear na violência, ela pode se basear na brincadeira, assim como ocorre com nossos parentes paniscus [bonobos]."  

Os animais podem usar a força para convencer e podem não usar...Existem animais que não usam,  entre diversas respostas de comportamento "escolheram" a da paz...os bonobos são assim... Nós também somos animais, gente!!! 

De fato, não sei se podemos dizer que os bonobos fizeram uma escolha e os chimpanzés outra, mas nós podemos fazer, porque temos ao nosso lado a razão. Esse instrumento permite que façamos escolhas conscientes. Ela não nos torna melhor ou pior, nos torna diferentes e capazes de escolher conscientemente e mudar o futuro, o nosso e os de outras espécies. 



Enfim, acho que já disse tudo que esse texto me inspirou a dizer....Talvez volte a ele para retocar alguma coisa..... Muitas perguntas ficam, claro, senão a leitura não teria valido a pena.... Serão esses os melhores argumentos para levar as pessoas a olharem de outro modo os animais não-humanos? Será que podemos ser capazes de tirar os olhos do nosso próprio umbigo e tentar fazer o bem a outros seres que compartilham a Terra conosco? Será que seremos capazes de ultrapassar interesses da nossa espécie em favor de outras? Conseguiremos fazer nossa tendência para a paz ser maior do que nossa tendência para a violência? 

Para mim é mistério....alguém gostaria de dizer alguma coisa? 

Fontes das citações: (Os três textos valem a pena! Vai lá, vai!)

Enquanto pesquisava para fazer este texto, encontrei muito blogs interessantíssimos: 
Alma de Educador
Marco Evolutivo
Bio-Wilson 
O Blog da pré-história
Psicologia Evolucionista na Clínica
Primatas
Guia Vegano

Entre outros, vou completando e os endereços estarão na minha lista de blogs. 
Bjs